Fidgeting em pacientes de TDAH:

Um estudo da relação entre as inquietações do dia-a dia em pacientes de TDAH

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    Recentemente, um brinquedo virou febre mundial e foi muito procurado por adolescentes por ser algo, supostamente, desestressante e que auxilia a atenção; o conhecido Fidget Spinner. O propósito deste brinquedo era ajudar no foco das pessoas (especialmente com ansiedade ou déficit de atenção), o que está diretamente ligado ao nome fidget. O ato de fidgeting é pequenas inquietações, que não pensamos ao fazer, como o mexer dos dedos, o bater na caneta, mexer as pernas, ou até desenhar e ouvir música; que normalmente ocorre em momentos que demandam atenção por longos períodos de tempo ou momentos de tédio, algo que é afirmado sobre tal fato é que tendemos a devanear quando estamos entediados. Em escolas, essas ações normalmente são vistas como meras distrações e desencorajadas (até punidas), uma ideia que está entrando em conflito hoje em dia. Supostamente, fidgeting é dito como benéfico à nossa atenção, porém, só existem estudos que aprofundam essa relação entre fidgeting e atenção, em pacientes com TDAH.                      

    O TDAH é uma síndrome de espectro que é composta por, entre muitos de seus sintomas, uma grande desatenção em realizar tarefas. Essa síndrome tem como causa a hipoativação do córtex pré-frontal e do cerebelo (duas regiões do cérebro), que causa uma disfunção em dois neurotransmissores, a noradrenalina e a dopamina, sendo eles portanto a área de ação do principal medicamento para pacientes de TDAH, a Ritalina. A dopamina, em especial, atua diretamente no controle da atenção, tendo uma relação já observada em estudos de Nora D. Volkow, MD; Gene-Jack Wang, MD; Scott H. Kollins, PhD; et al (2009), que mostrou sintomas semelhantes ao TDAH na falta de dopamina. Este estudo apresenta um outro lado da questão que é a de haver um déficit de motivação e recompensa em tais pacientes que também se relaciona à dopamina. Nessas pessoas o fidgeting é muito presente, o que sugere, primeiramente, uma relação entre a falta de atenção e essas inquietações, uma relação já quase óbvia para muitos, sendo abordada no estudo de Carriere et al. (2013), onde é sugerido que o fidgeting é previsto pela desatenção espontânea (algo a ser retomado em outra postagem ao discutirmos o famoso fidget spinner).

    A questão nova que está sendo trazida é de uma relação entre o fidgeting e a volta a um estado de atenção, indicando essas inquietações como, portanto, não só um indicador de um problema, mas a solução. Em 2016, o jornal Child Neuropsychology publicou uma pesquisa feita por Julie Schweitzer, diretora do programa de TDAH da University of California, Davis, MIND Institute, que estudou jovens de 10 a 17 anos e que possuem TDAH. Os jovens faziam tarefas no computador usando um monitor de movimento no tornozelo, para medir o fidgeting. O estudo mostrou que os que praticaram fidgeting durante a realização das tarefas tiveram melhores desempenhos, em comparação àqueles que não fizeram nenhum tipo de fidgeting. Outro estudo, feito pela School of Psychology, University of Plymouth, UK,  descobriu que pessoas permitidas a fazerem doodle, uma espécie de desenho ou rabisco que pode ser um modo de fazer fidgeting, enquanto estavam conversando no telefone foram capazes de lembrar mais fatos depois, do que as pessoas que não fizeram nada. Antes de discutirmos o porquê dessa questão, precisaremos aprofundar a definição de atenção.

    Atenção é uma das várias funções cognitivas do nosso cérebro, mas que contém diferentes definições operacionais. Ela, de acordo com o livro Neuropsicologia do Desenvolvimento, conceitos e abordagens, de Mello, C.B, Miranda, M.C e Muszkat, M, “corresponde a um conjunto de processos que leva à seleção ou priorização no processamento de certas categorias de informação, ou seja, ‘atenção’ é o termo que refere-se aos mecanismos pelos quais se dá tal seleção de estímulos.” O estudo de Mackworth, 1948, sugeria que o fidgeting seria como um tipo de pausa ou descanso para o cérebro em estados de desatenção, mas outras relações estão sendo foco de muitos estudos.

    No estudo Embodied Self-Regulation with Tangibles, publicado em 2016 por Katherine Isbister e Michael Karlesky, “Fidgets ajudam aqueles que sofrem de TDAH a manter o foco apropriado e atenção através de propriedades calmantes e estimulantes” (tradução livre). Partindo do pressuposto que o fidgeting é resultado da falta de atenção, sendo portanto resultado da carência de estímulos, o estudo coloca uma hipótese do fidgeting como um mecanismo do corpo para promover a liberação natural de estímulos, nesse caso psicológicos, que aumentariam a nossa energia e atenção e, por sua vez, aumentariam o foco na tarefa.

    Em seu livro Fidget to Focus: Outwit Your Boredom: Sensory Strategies for Living with ADHD, os autores Roland Rotz, Ph.D, and Sarah D. Wright, MS, ACT, descrevem o fidgeting como estratégias sensório-motoras simultâneas para a estimulação, que traz novamente a ideia dos movimentos como estímulos, adicionando ainda que o fidget ocorre quando não há um nível de interesse suficiente na tarefa, trazendo um estímulo sensório-motor que capturaria nossa atenção e, portanto, possibilitaria o foco na atividade primária. Outra pesquisadora, Sydney Zentall, PhD da University of Purdue, tem uma tese semelhante. De acordo com ela, uma atividade que utiliza um outro sentido diferente daquele requerido pela atividade primária, o fidgeting, pode aumentar a performance de crianças com TDAH, uma vez que fazer duas coisas ao mesmo tempo, de acordo com ela, força o cérebro a focar na atividade central.

    Um outro autor, John Ratey, MD, professor de psiquiatria na Escola de Medicina de Harvard, aponta em seu livro Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain, que fidgeting aumenta os níveis de neurotransmissores dopamina e noradrenalina, os mesmos que foram apontados anteriormente como sendo hipoativados em pacientes de TDAH e presentes em medicamentos do mesmo.

    Todos esses autores têm uma concepção em comum de que o fidgeting traz resultados positivos na atenção de pacientes com TDAH, assumindo primeiramente que ele indica a desatenção. Analisando todos esses estudos, vemos que só houve um aumento da atenção em pacientes com TDAH, talvez algo que possa estar relacionado a disfunção dos neurotransmissores no córtex pré-frontal e o fato de fidgeting causar um aumento nos níveis desses neurotransmissores, algo que em pessoas sem nenhum déficit não é necessário.

    Por fim, visando os estudos apresentados, é possível identificar, realmente, uma relação entre o aumento da atenção em pacientes com TDAH e o fidgeting, uma vez que este é realizado em momentos de maior tédio, como uma forma do nosso cérebro de voltar nosso foco a tal atividade primária, além dele aumentar os níveis dos neurotransmissores “carentes” nesses pacientes, do mesmo modo que os remédios para TDAH fazem. Tendo tudo isso em mente, acreditamos que o ato de fidgeting deveria ser encorajado, pelas famílias ou até escolas, à crianças com TDAH, pois assim elas poderiam ter uma melhora na atenção por meio de uma atividade tão simples quanto o fidgeting.

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2 comentários em “Como se relacionam o fidgeting e atenção no TDAH?

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